
As alterações climáticas estão a prolongar a época das alergias: os dados confirmam-no
Revisão clínica: Joana Gouveia, imunoalergologista
Se tem a sensação de que, todos os anos, a alergia começa mais cedo e se prolonga para além do habitual, essa perceção não é apenas subjetiva. Durante muito tempo, esta impressão foi atribuída à memória seletiva ou à variabilidade meteorológica de cada estação. No entanto, a evidência científica acumulada na última década veio alterar completamente essa interpretação: as alterações climáticas estão a modificar, de forma mensurável e quantificável, a duração, a intensidade e a composição da época polínica. Não se trata apenas de uma perceção, mas de um fenómeno documentado ao longo de vários anos através de séries de dados, cujas consequências clínicas já são visíveis nas consultas de Imunoalergologia.
¿Porque todos os anos a alergia começa mais cedo e dura mais tempo?
A explicação para este fenómeno não é única nem simples: resulta da combinação de um efeito imediato, já observável nos registos históricos, e de uma projeção futura que agrava ainda mais esta tendência. Ambos apontam na mesma direção: a temperatura é a variável que melhor explica quando começa e quando termina a época de polinização.
O efeito da “dupla tesoura”: o mecanismo por detrás do prolongamento
O aumento das temperaturas médias antecipa a floração das plantas de polinização primaveril (como as árvores) e atrasa o fim do ciclo das plantas de polinização estival e outonal (como as gramíneas e a artemísia). O resultado é aquilo a que os investigadores chamam um efeito de “dupla tesoura”: a janela de exposição ao pólen expande-se simultaneamente em ambas as extremidades do calendário. Não se trata de um simples deslocamento da época polínica, mas sim de uma expansão efetiva da sua duração total.
O que os estudos projetam para o futuro
O estudo de Zhang e Steiner, publicado na Nature Communications (2022), modelou a evolução deste fenómeno nos Estados Unidos sob diferentes cenários de aquecimento global. As principais projeções são as seguintes:
- Com um aumento da temperatura entre 4 e 6 °C até ao final do século, o início da emissão de pólen na primavera poderá ocorrer entre 10 e 40 dias mais cedo relativamente aos padrões atuais.
- As plantas de polinização estival e outonal (gramíneas e artemísia) irão atrasar o final do seu ciclo entre 5 e 15 dias adicionais, reforçando o efeito da dupla tesoura.
- A produção anual total de pólen aumentará entre 16% e 40%, dependendo da espécie e da região.
- No cenário mais extremo, caso a concentração atmosférica de CO₂ duplique em relação aos níveis pré-industriais, as emissões de pólen no final do século poderão aumentar até 200%.
Estes valores não correspondem a estimativas especulativas. Baseiam-se em modelos climáticos validados e aplicados ao estudo da polinização, cujos autores apresentam de forma clara as margens de incerteza associadas às projeções.
Os dados que o demonstram: mais 20 dias de época polínica e mais 21% de pólen no ar
Se o estudo anterior projeta o futuro, o seguinte confirma que este fenómeno já está a acontecer. Trata-se de uma das análises mais completas atualmente disponíveis sobre a evolução histórica da época polínica, sendo precisamente a robustez da sua metodologia que confere solidez às suas conclusões.
Falamos da investigação de Anderegg e colaboradores, publicada na PNAS (2021), na qual foram analisados dados de 60 estações de monitorização aerobiológica distribuídas pelos Estados Unidos e Canadá, abrangendo o período entre 1990 e 2018. No total, a amostra inclui mais de 800 anos-estação de dados acumulados – calculado pela multiplicação do número de estações pelos anos de dados ativos de cada uma – tornando-se um dos maiores conjuntos de dados alguma vez analisados sobre este fenómeno. Os principais resultados foram os seguintes:
- A época polínica prolongou-se, em média, 20 dias ao longo do período estudado.
- As concentrações de pólen no ar aumentaram, em média, 21%.
- As alterações climáticas de origem antropogénica, isoladas de outros fatores de variabilidade natural através de modelos estatísticos, são responsáveis por aproximadamente 50% do prolongamento observado e por 8% do aumento da concentração de pólen.
- A temperatura é, de longe, o fator preditivo mais importante para o início da época polínica: explica entre 14% e 37% das alterações registadas ao longo das décadas analisadas, muito acima de outras variáveis, como a precipitação.
Este último dado é particularmente relevante do ponto de vista clínico: significa que a temperatura não é apenas mais um dos fatores envolvidos, mas sim a variável dominante para prever quando os sintomas alérgicos começarão em cada ano.
O CO₂ não aquece apenas o planeta: também torna o pólen mais agressivo
Até aqui, os dados dizem respeito à duração da época polínica: mais dias de exposição ao pólen. No entanto, existe uma segunda dimensão do problema, menos conhecida e potencialmente ainda mais relevante do ponto de vista clínico: o próprio pólen poderá ser qualitativamente diferente do que era há algumas décadas, e não apenas mais abundante.
Mais CO₂, mais pólen por planta
A concentração atmosférica de CO₂ aumentou de 280 ppm na era pré-industrial para 421 ppm em 2022, o valor mais elevado alguma vez registado, segundo os dados do observatório de Mauna Loa (NOAA). Concentrações mais elevadas de CO₂ estimulam a fotossíntese e aumentam diretamente a produção de pólen por planta. Isto significa que o problema não se limita ao prolongamento da janela temporal de exposição: cada planta liberta atualmente mais pólen por dia do que no passado, potenciando ainda mais o efeito do prolongamento da época polínica.
O fenómeno da asma induzida por tempestades
As alterações climáticas também estão a intensificar a frequência e a gravidade dos episódios de asma induzida por tempestades (thunderstorm asthma). Durante estes episódios, a atividade elétrica e a elevada humidade associadas às tempestades fragmentam os grãos de pólen que, em condições normais, são demasiado grandes para alcançar as vias respiratórias inferiores, transformando-os em partículas ultrafinas capazes de atingir os brônquios. Este é um dos exemplos mais marcantes de como o clima pode alterar, de forma súbita, o perfil de risco respiratório de uma população inteira em apenas algumas horas.
O que está a acontecer na Europa e, em particular, em Portugal
Os dados apresentados anteriormente provêm maioritariamente de estudos realizados na América do Norte. Mas o que acontece na Europa? E será que esta tendência também se verifica em Portugal? A resposta é afirmativa, existindo igualmente dados nacionais que a corroboram.
O perfil polínico em Portugal
Portugal dispõe de uma rede nacional de monitorização aerobiológica (RPA/SPAIC) com várias décadas de recolha contínua de dados, permitindo caracterizar com precisão o perfil de sensibilização da população alérgica portuguesa. Segundo os dados disponíveis, 34,4% dos doentes alérgicos portugueses estão sensibilizados às gramíneas, 21,3% à Olea europaea (oliveira) e 17,5% à parietária. Esta distribuição não é casual: estes três tipos de pólen são precisamente aqueles que a literatura científica identifica como mais sensíveis ao impacto do aquecimento global sobre a fenologia da floração.
A tendência mediterrânica e atlântica
Além disso, estudos recentes realizados no sul da Península Ibérica documentam épocas de polinização das gramíneas mais prolongadas e um maior número de dias com concentrações elevadas de pólen, em linha com a tendência de aquecimento regional observada noutras zonas. No caso da oliveira, uma revisão dos estudos disponíveis sobre o sul da Europa conclui que 75% deles descrevem um avanço gradual e consistente no início da polinização ao longo das últimas décadas. A região mediterrânica e atlântica portuguesa é particularmente vulnerável a este fenómeno, uma vez que as suas principais espécies alergénicas (gramíneas, oliveira e parietária) respondem de forma direta e mensurável ao aumento das temperaturas.
O que significa isto para as pessoas com alergia
Todos estes dados — o prolongamento da época polínica, o aumento da concentração de pólen, a maior agressividade do pólen e a confirmação desta tendência a nível local — traduzem-se em consequências muito concretas para quem vive com alergias. Em primeiro lugar, significam mais dias por ano com sintomas ativos, aumentando a carga global da doença e o seu impacto acumulado na qualidade de vida. Em segundo lugar, existe um maior risco de sensibilização em pessoas que até então não tinham desenvolvido alergia, uma vez que uma exposição mais prolongada e intensa aos alergénios favorece o aparecimento de novos casos de doença alérgica. Por último, o impacto é desproporcionadamente maior nos grupos mais vulneráveis: crianças em idade escolar, pessoas com asma pré-existente e residentes em ambientes urbanos, onde a poluição atmosférica pode potenciar ainda mais o efeito irritativo do pólen sobre as vias respiratórias.
Perante este cenário em constante mudança, identificar com precisão a causa dos sintomas torna-se cada vez mais importante para permitir ajustar o tratamento, de modo a minimizar o seu impacto na vida quotidiana.
A evidência científica analisada neste artigo conduz a uma conclusão clara: as alterações climáticas não são um fenómeno abstrato ou distante quando falamos de alergia respiratória, mas sim um fator que já está a modificar, de forma mensurável, o número de dias por ano em que uma pessoa alérgica convive com sintomas e a intensidade com que estes se manifestam. A época polínica é mais longa, o pólen é mais abundante e, em determinadas condições, também mais agressivo. Compreender este mecanismo não é apenas uma questão de interesse científico: é o primeiro passo para antecipar uma época de alergias que, ano após ano, se torna cada vez menos semelhante àquela que conhecíamos.
PT-ZI-2600003